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JOÃO
PESSOA/PB – DOMINGO, 28 DE JUNHO DE 2009
Programa
resgata jovens da violência
FONTE:
Jornal Correio da Paraíba
Há
um perfil de jovem no Brasil, com idade entre 15 e 24 anos, que
é ignorado pela família, marginalizado pela sociedade,
excluído da escola e abandonado pelo Estado. Sua voz é
ouvida apenas quando tem uma arma na mão. Aí se sente
forte e imagina ser respeitado, mas passa a viver em conflito com
a lei. Muitas vezes é “invisível” e acaba
sendo cooptado pelo crime organizado.
É para essa geração de excluídos que
o Ministério da Justiça criou o Programa Nacional
de Segurança com Cidadania (Pronasci), que tem como um dos
objetivos articular ações de repressão, prevenção,
sociais e de resgate dos Direitos Humanos, como, por exemplo, dar-lhe
um registro de nascimento ou documento de identidade, além
oferecer cultura e esportee. Qualificação profissional
e inclusão digital.
Um dos pensadores e executores do Pronasci é o consultor
do Banco Mundial Hélio Ricardo Machado Lôpéz.
Gaúcho, aos 37 anos, formado em Educação Física
e doutorando em Psicologia, ele se refere ao programa com entusiasmo,
diz que em menos de um ano os resultados já são positivos,
principalmente no Recife e revela que um dos seus sonhos é
ver o Pronasci sendo executado em toda Zona Metropolitana da Capital
paraibana. Hélio Lôpéz veio a João Pessoa
para se casar e recebeu o Correio para esta entrevista.
A entrevista
- O que é o Pronasci?
- É o Programa Nacional de Segurança Pública
com Cidadania, que tenta articular junto com as ações
de repressão policial, os aspectos preventivo e social que
a Segurança Pública necessita.
- O que
justificou a opção por essas ações conjuntas?
- Só a repressão não dá conta, de abarcar
todo o fenômeno que a criminalidade e a violência percorrem
no trajeto social.
- É
uma interpretação nova do fenômeno da violência?
- O que nós propomos com o Pronasci é uma quebra de
paradigmas, da repressão, do armamento, de equipamento e
aparelhamento das policiais, para também trabalharmos com
as questões sociais, com projetos sociais que são
vinculados e interferem direta ou indiretamente na violência.
- Que
tipo de interação esses projetos têm para proporcionar
essa nova visão do combate à violência?
- Com a quebra desse paradigma, o contexto da criminalidade passou
de ser só repressão para ser também de prevenção.
E na prevenção entram os projetos sociais. Nós
acreditamos que através da educação, da cultura,
do esporte, do lazer, de espaços que possam ser re-significados
dentro da própria sociedade, isso pode fazer com quem, indiretamente,
os índices de criminalidade diminuam.
- Como
isso acontece na prática?
- O que é que o Pronasci pega? A Educação para
os jovens, de 15 a 24 anos, que é o nosso público
alvo e a partir daí começa a fazer um incremento de
políticas públicas dentro dessas áreas.
-O senhor
poderia especificar como isso ocorre?
- Nós fizemos uma série de parcerias, de convênios
interministeriais. O Ministério da Justiça aporta
recursos nos ministérios parceiros, como por exemplo, nos
ministérios Esportes e da Cultura, da Saúde, da Ciência
e Tecnologia e do Trabalho e Emprego, fazendo com esses ministérios
que têm seus técnicos e sua expertise em cada uma de
suas áreas possam apoiar os projetos do Pronasci.
- Já
há algum projeto que tenha apresentado resultados positivos?
- Um projeto com muito sucesso é o Pelc – Programa
de Esportes e Lazer nas Cidades, que trabalha com a capacitação
e a formação de mobilizadores sociais.
- Como
isso ocorre?
-O Pelc junto com o Pronasci chega à comunidade identifica
as lideranças, mapeia os trabalhos que já vêm
sendo desenvolvidos e a partir daí ele aporta recursos, garante
que os projetos tenham andamento e, ao mesmo tempo, traz coisas
novas, como ping pong, capoeira, hip hop, dança, uma série
de outros elementos culturais que se o jovem tiver engrenado nessa
estrutura social, como esporte e lazer, a tendência de que
ele vá para a criminalidade pé muito menor.
- Além
das lideranças qual o outro público alvo desses programas?
- Os jovens que podem se tornar multiplicadores da cidadania. A
partir do momento que eles entram no projeto, passam a ser um agente
potencializador da cultura de paz. Ele vai angariando e recrutando
outros jovens, que também passam por dificuldades, na ociosidade
ou em conflito com a lei ou em iminente conflito com a lei. A partir
do momento que o jovem tem esse espaço onde possa se expressar
e produzir, que ele possa ter, principalmente, o protagonismo social,
esse jovem passa a integrar a cultura de paz. E aí o processo
de violência juvenil vai diminuir.
- Que
perfil a cidade precisa ter para se integrar ao programa?
- Quando pensamos o Pronasci, pensamos primeiro para aquelas capitais
violentas e suas respectivas regiões metropolitanas. Mas
em qualquer programa ou projeto tem que se identificado aquilo que
chamamos como ponto de corte, que é o critério para
dizer esse Estado entra esse não; essa cidade entra essa
não.
- Como
se chegou a escolhas dos Estados ou cidades que seriam beneficiadas?
- A partir de uma linha histórica que fizemos desde 2001,
junto com os técnicos da Secretaria Nacional de Segurança
Pública, nós evidenciamos que a faixa etária
que mais sofria violência era a de 15 a 24 Anos. E que as
regiões metropolitanas onde essa violência incidia
eram Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife,
Belo Horizonte, Salvador, Vitória e Rio Branco, e a partir
do momento que estabelecemos essas capitais, estabelecemos também
critérios para elas.
- E quais
são esses critérios?
- O número de homicídios por cem mil habitantes. E
qual é esse número? Cinqüenta homicídios/ano
na faixa etária de 15 a 24 anos, que é a faixa etária
em que mais incide a violência e a que mais gera a violência
também.
- O que
inspirou o Pronasci, como o governo chegou à conclusão
de que era preciso conceber um projeto interdisciplinar de resgate
da cidadania?
- isso foi uma demanda social, um clamor da própria sociedade.
O ministro da Justiça, Tarso Genro nos pediu um projeto que
trabalhasse educação, cultura, lazer, integrado com
a repressão policial. E foi daí que surgiu o Pronasci,
que trata a questão da violência como um problema como
sendo responsabilidade de todos: da União, dos estados, dos
municípios e da sociedade. Um problema da magnitude e da
complexidade que a criminalidade se tornou no nosso país,
não há como se combater de forma isolada.
- Não
havia nada sendo feito antes com esse perfil no País?
- É uma experiência pioneira, inovadora e consegue
fazer um aparato institucional que até antes não tinha
sido visto. Na fase de elaboração do programa, nós
fizemos mais de 70 colóquios só em Brasília
e chamamos todas as entidades, sociais, ocips (organizações
civis públicas) e ongs que tinham serviços prestados
à comunidade, principalmente na área social, na prevenção
para dar seu depoimento e contribuir com todas as suas ações,
com o know how que tinham desenvolvido. Fizemos o planejamento estratégico
com a participação de todos.
- O que
a cidade que tem o perfil para se enquadrar no Pronasci deve fazer
para aderir ao programa?
- A partir do momento que são identificados os critérios
de adesão - tanto o município como o Estado pode solicitar
a adesão. É ter os critérios e encaminhar o
pedido de adesão ao Ministério da Justiça.
- Há
recursos para garantir que essa idéia não fique apenas
no papel?
- O pronasci, sofreu um contingenciamento de R$ 900 milhões,
mas o ministro Tarso Genro (da Justiça) conseguiu reverter
isso junto ao ministro Paulo Bernardo (do Planejamento) e há
duas semanas o ministro Paulo Bernardo informou que o programa receberia
sua verba na íntegra. Para este ano temos R$ 1,46 bilhões
para executar em segurança pública no país.
-Esses
recursos vêm de qual fonte?
-Desde a concepção, os recursos foram pensados para
saírem do Plano Plurianual (PPA) e todo o planejamento das
94 ações que o Pronasci prevê. Na verdade agora
são 104 ações, a partir do momento que o Ministério
das Minas e Energia passou a ser nosso parceiro também. A
questão da iluminação pública como todos
sabem é fator de violência também. Onde há
terreno baldio e a iluminação pública não
chega, os índices de criminalidade crescem bastante. Não
temos financiamento nem do Banco Mundial nem de nenhuma outra agência
técnica internacional. É dinheiro do orçamento.
- Como
os técnicos chegaram a essa faixa etária de 15 a 24
anos para público alvo do programa?
- A tipificação criminal é muito própria,
muito característica de cada cultura, de cada país.
Na Colômbia, há uma série de localidades que
eram comandadas pelo crime organizado do narcotráfico e que
quando o braço do Estado alcançou aquelas comunidades
que não tinham suas demandas respondidas, isso se modificou.
A Colômbia é um exemplo. No Brasil, a criminalidade
tem outras características.
Por exemplo?
- Uma socióloga da Universidade do Fundão no Rio de
Janeiro começou a trabalhar nas favelas do Ro de Janeiro
e chamou a atenção apara a ausência de telhados
nas casas. O que é que isso? Foi até a favela do Complexo
do Alemão e começou a fazer um trabalho que a agente
chama dentro de uma metodologia que é de pesquisa-ação,
que ocorre quando o pesquisador vai até a comunidade para
interagir, numa verdadeira imersão. Ela aponta para uma série
de hipóteses, mas a mais concreta é a seguinte: quando
tu chegas numa favela do Rio de Janeiro, se tu vais tentar fazer
um telhado, o comandante do crime organizado chega para ti e diz:
olha nós bancamos a tua chapa, a tua laje. Você contra
argumenta dizendo que quer o telhado, o chefe diz que você
não pode fazer, porque a chapa, a laje, proporciona melhores
condições para uma fuga.
- Há
uma influência te na questão arquitetônica, urbanística?
- Exatamente. A Arquitetura é ditada pelas necessidades do
crime organizado. E isso é uma questão muito própria
do Brasil, porque em nenhum outro país do mundo, as favelas
têm laje. Então, veja como a questão da cultura
para a tipificação criminal tem desdobramentos que,
muitas vezes, você não tem como compreender e não
pode servir de parâmetros para outras comunidades.
- A maior
característica da violência no Brasil decorre da pobreza
mesmo?
- É um pool de fatores. E os principais são esses
que a gente ataca com o Pronasci: a falta de educação,
ou a baixa escolaridade da comunidade, a falta de condições
de trabalho e de emprego, falta de acessos à cultura, à
educação, ao lazer. Temos que pensar de uma maneira
holística, interdisciplinar para tentar reverter esse processo.
Quando
você analisa o dado estatístico, ele é frio,
mas quando você olha para um dado você deve procurar
saber o que vai além dele. Quando pensamos o Pronasci, começamos
a ver o seguinte: a faixa etária que mais entrava para o
narcotráfico era de 19, 20, 21 anos. Por que não era
outra faixa?
- Se
chegou a identificar por quê?
- Começamos a pesquisar e sabe qual foi à resposta?
Aquele menino que sai do quartel, ele sai dela como? Sabendo manusear
arma de fogo, respeitando a hierarquia e com uma compleição
física bem melhor do que quando lá entrou. Isso para
o crime organizado é o melhor profissional que ele precisa.
Todas as características e qualificações técnicas
eu o crime organizado precisa, o Estado, o governo prepara e dá
de graça para ele.
- O que
vai ser feito a partir dessa constatação?
- Nós pensamos num projeto, numa ação que se
chama Reservista Cidadão. Aqueles meninos que saíram
Serviço Militar e não engajaram recebem uma bolsa
de R$ 180 e vão fazer cursos técnicos com no mínimo
320 horas para que se qualifiquem. Ele vai ter uma possibilidade
de inserção no mercado profissional. Esse menino quer
produzir, quer ser cidadão também e isso passa necessariamente
pelo viés financeiro.
- Como
o Pronasci incentiva o acesso à cultura, à criatividade
artística?
- Em Brasília nos temos parcerias com os ministérios
da Cultura e da Ciência e Tecnologia. No Ministério
da Cultura tem um programa que incentiva pontos de leitura, bibliotecas
públicas. O que fizemos? Fizemos a pesquisa dentro do bairro,
de uma cidade que já aderiu ao Pronasci, e o Ministério
da Cultura abre um edital e todos aqueles projetos de cultura, seja
na área de dança, de música, de biblioteca
comunitária, de folclore, de cantigas, ou seja, algo que
tenha o sentimento, que a gente chama na sociologia de pertencimento,
de fazer parte da sociedade, aquele projeto é encaminhado
ao Ministério da Cultura, através do Pronasci, que
financia. É assim também em Recife, em Rio Branco,
etc. Tudo que envolver cultura e seja direcionado ao nosso público
alvo de 15 a 24 anos.
- E o
que é o tele-centro, que também está previsto
no Pronasci?
- O tele-centro é uma sala com dez computadores, com banda
larga, com todas as instalações para proporcionar
a essa comunidade, esse público alvo, o acesso a era digital,
a famosa inclusão digital. Já temos tele-centros em
Porto Alegre, em Brasília, em Recife e em várias outras.
- Outro
objetivo do programa é a modernização do sistema
de segurança pública e a valorização
de seus profissionais e a reestruturação do sistema
prisional...
- O Pronasci não pensou só no víeis social,
mas também no viés de repressão e de qualificação
de seus profissionais. Todos os profissionais envolvidos no aparato
de segurança pública, que têm salários
abaixo de R$ 1.800 teriam direito a uma bolsa de R$ 400 reais/mês
para que pudessem se qualificar profissionalmente e pudessem garantir
recursos maiores em seus salários. É o Bolsa Formação.
E para receber essa bolsa, o profissional tem que fazer um curso
virtual, entre os mais de 70 que são oferecidos por ano.
- E como
é feita a ressocialização do jovem, que é
outra ação prevista no Pronasci?
- Esse jovem que cai na criminalidade tem que ter atendimento diferenciado,
porque senão ele na prisão vai aprender mais, se qualificar
do ponto de vista do crime. Nós propomos estabelecimentos
penais especiais para o jovem de 18 a 24 anos. Lá o jovem
terá um módulo de saúde, de educação,
de informática e esporte, porque nós acreditamos que
aquele jovem que está em risco iminente com a lei ou que
já caiu na criminalidade tem uma possibilidade maior de ressocialização.
- Como
é o funcionamento dentro da prisão especial?
- Quando ele cai nesse módulo especial, nesses estabelecimentos
penais diferenciados, ele vai ter possibilidade de renda, em projetos
de fabricação de material esportivo. Ele vai aprender
um ofício, aula de informática, saúde, esporte
e lazer diferenciados dentro do próprio presídio.
Esse jovem é mais fácil de ressocializar do que algum
outro apenado que já caiu duas, três, quatros vezes
na prisão.
- O Pronasci
também tem um alvo nos direitos humanos. Como essa questão
é abordada?
- Direitos humanos para nós passa pela questão da
saúde, da educação, da cultura e principalmente
acesso à Justiça, que hoje infelizmente ainda não
temos. Em Brasília colocamos a Promotoria de Justiça
dentro de uma comunidade extremamente carente que se chama Itapoã.
Por quê? Porque em Brasília para você sair de
uma região para outra para conseguir um atendimento para
ter acesso à Justiça, você demora uma hora,
uma hora e meia.
- O combate
ao trabalho, e a exploração sexual infantis também
são alvos do Pronasci?
- Esta dentro de nossa faixa etária de 15 a 24 anos. Para
se ter uma idéia, Fortaleza entrou no Pronasci não
porque tinha índices de criminalidade dentro daquele perfil
de 50/100 mil, mas por causa do tráfico de meninas e jovens
envolvidos em prostituição e principalmente por causa
do turismo sexual.
- Como
foi sua experiência no Banco Mundial?
- Eu trabalhei cinco anos no Banco Mundial na Coordenação
de Planejamento, Monitoramento e Avaliação de Projetos
e saí em 2007 a pedido do Pronasci. Ajudei a pensar o Pronasci,
fui um dos formuladores da proposta e também coordenei o
programa no Distrito Federal e em sete municípios do entorno
e em Goiás. Estou voltando agora para mais uma temporada
no Banco Mundial, para fazer uma avaliação do Projeto
Vigisus – Projeto de Modernização de Vigilância
e Saúde, que é um acordo de cooperação
do Banco Mundial com o Governo Brasileiro, que foi inclusive aprovado
pelo Senado. A tendência é que ele seja executado por
mais quatro anos, além dos oito já em execução.
- E como
está a Paraíba no Pronasci?
- A Paraíba é um sonho do meu coração.
Quero trazer o Pronasci para cá, com suas 104 ações.
Já foi sinalizado positivamente a inserção
de João Pessoa no programa. Estamos esperando para que, se
tudo der certo, a gente possa firmar parcerias com a cidade e desenvolver
os projetos aqui.
Luiz Carlos Sousa
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Veja
a situação de algumas delegacias na Paraíba |