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JOÃO
PESSOA/PB - 21 DE JULHO DE 2010
CARREIRA JURÍDICA PARA OFICIAIS
DA PMMG: ABANDONO DOS IDEAIS DA GREVE DE 97
Na história
recente da Polícia Militar de Minas Gerais, não se
tem conhecimento de uma mobilização tão explítica
do Comandante-Geral e dos demais níveis de Comando, como
a empreitada em relação às votações
do PLC 59 e 61. Para viabilizar a aprovação destes
projetos de lei, que culminaram, respectivamente, na implantação
da carreira jurídica para os Oficiais do QOPM, bem como da
exigência de ensino superior para ingresso na carreira de
praças, com um período de transição
de 05 anos, prorrogáveis por mais 05, para estes últimos.
Tanto
que para viabilizar o comparecimento da tropa durante as votações
na Assembléia Legislativa, foram utilizados procedimentos
ilegais, e antiéticos, como por exemplo, o cancelamento do
estágio de todos os alunos do Curso de Formação
de Soldados e a escala de militares lotados nas Unidades da Corporação,
tratando o comparecimento nas votações, como ato de
serviço.
Mas,
como a sabedoria popular, ensina que jabuti não sobe em árvores,
este envolvimento Oficializado do Comando, nunca antes visto em
Minas Gerais , deveria ser analisado, com a devida prudência
pelas lideranças e pelos policiais de base, antes de alinharem-se,
de forma açodada na aprovação a "toque
de caixa" destes projetos.
Para
justificar a pressa na aprovação, o Comando suscitou
o discurso fácil e oportunista, de que a Polícia Civil
já havia conseguido aprovar carreira jurídica para
Delegados e ensino superior para Investigadores. Então, a
Polícia Militar não poderia ficar para traz, uma vez
que os Delegados poderiam obter equiparação salarial
com os Procuradores do Estado e assim, um Delegado em início
de carreira, ganharia mais que um Comandante de Batalhão.
Este
discurso permite a seguinte inferência: A implantação
de exigência de carreira jurídica, para ingresso no
Quadro de Oficiais, foi vislum br ada como estratégia necessária,
para construir fundamentos legais, de sorte a impedir que os Delegados
da Polícia Civil recebam aumentos maiores que os Oficiais,
e, ao mesmo tempo, garantir, que numa eventual unificação
das polícias estaduais, a formação jurídica,
seja utilizada como argumento prejudicial aos interesses dos Oficiais.
Resolvida
a questão dos Oficiais, surgiu um problema, qual seja, a
legislação passou a exigir o nível superior
para o ingresso em qualquer carreira da Polícia Civil. Nessas
condições, verifica-se que os mesmos argumentos utilizados
para implantar a carreira jurídica para os Oficiais, ou seja,
manter igualdade de salários com Delegados, também
justificariam a implantação de exigência de
3º grau para Soldados, uma vez que os seus vencimentos, atualmente
também são equiparados aos investigadores.
Ocorre,
que, veladamente, o Comando da Polícia Militar entende que
a exigência de nível superior para o ingresso como
Soldado não atende aos interesses da cúpula, porquanto
pressume-se que haveria dificuldade na socialização
do jovem, para a obediência militar, se este, chegar à
Corporação já "contaminado" pela
visão crítica obtida na formação universitária.
Esta
inferência decorre das dificuldades, já enfrentadas
em relação aos civis que ingressaram na Corporação,
com o nível superior, uma vez que por possuírem esta
visão crítica, fica mais difícil "comandá-los".
Nesta
toada, insta acentuar que a dificuldade decorre do ambiente de hipocrisia
que existe na caserna, onde o que é falado, não é
exercitado na prática. Para exemplificar, basta verificar
que um dos princípios da Ética Militar, insculpidos
no Código de Ética da profissão é o
dever de obediência aos princípios da Administração
Pública, mas na realidade, isto, na Corporação,
para os Comandos, é uma mera formalidade, uma vez que, a
par do mesmo diploma legal, tipificar como transgressão disciplinar
de natureza grave, a utilização de recursos logísticos
e humanos para atender interesses pessoais, os Comandos dos diversos
níveis ignoram a lei, e usam os veículos da Corporação,
para o transporte para o trabalho, e, pior, prendem em flagrante,
por crime militar de abandono de posto, os policiais de base, quando
estes, eventualmente, se afastam-se de seu posto de trabalho com
a viatura para atender algum interesse particular.
Então,
surgiu a estratégia de propalar para a tropa, que a Polícia
Civil não tem dificuldade para selecionar com terceiro grau,
uma vez que disponibiliza menos vagas. Argumentam até, que
seria impossível para a PM, recrutar 5.000 pessoas com terceiro
grau, no próximo ano.
Sob
estes fundamentos, surgiu a estratégia de criar a chamada
transição, de cinco anos prorrogáveis por mais
cinco, para efetivar a exigência de terceiro grau para Soldado
e, neste período, desenvolver um curso de tecnólogo
na própria PM, equiparado ao 3º grau, de sorte a manter
a escolaridade entre investigadores e Soldado.
Ocorre
que esta argumentação não é sustentável,
uma vez que o crescimento da PM, nos moldes atuais, está
arrasando o Hospital Militar e o sistema próprio de ensino,
que não foram planejados para esta demanda. Outro reflexo
deste crescimento, se verifica, na dificuldade para melhorar os
vencimentos, em face do aumento do efetivo.
Ademais,
o Curso de Formação de Oficiais, já é
equiparado a Curso Superior, e mesmo assim os Oficiais preferiram
exigir o Curso de Direito para ingresso no Oficialato, para não
a br ir qualquer questionamento, no que se refere à comparação
com os Delegados da Polícia Civil.
Na verdade, houvesse real interesse em implantar a exigência
de nível superior e buscar uma valorização
salarial para a base, a receita, seria a seguinte:
I -
Suspender novos concursos (isto foi feito por Itamar Franco, em
seu Governo , quando da implantação do piso de cinco
salários mínimos para o policial de base);
II -
Promover uma reforma da estrutura burocrática da Polícia
Militar, e no emprego dos policiais, através da extinção
de órgãos e contratação de funcionários
civis para o exercício de funções administrativas
que não demandam formação policial.
Mas,
isto não foi sequer cogitado, uma vez que a estratégia
do Comando foi articulada para atender os seguintes objetivos da
classe dos Oficiais:
I - Garantir, em longo prazo, a igualdade de tratamento com os Delegados
da Policia Civil, no caso de Unificação das Policias
Estaduais, uma vez que, ambas as carreiras exigem, a partir de agora,
o Bacharelado em Direito para ingresso;
II -
Sepultamento da reivindicação da implantação
da carreira única para ingresso na PMMG, uma vez que para
os Oficiais a exigência é de Bacharel em direito, o
que não ocorre para os policiais de base;
III - Elevação do Status da carreira dos Oficiais,
que exigirá como requisito para ingresso, idêntica
formação de Juízes, Promotores de Justiça
e Delegados de Polícia;
IV-
Ao final do período de transição de 10 anos,
o Curso de Tecnólogo realizado internamente na PM, estará
consolidado, bastando à alteração da lei, para
suprimir a exigência de 3º grau para soldado, pois, na
verdade, isto nunca foi objetivo real do Comando, sendo incluído
no projeto, apenas para conseguir o apoio dos praças ao projeto
de implantação da carreira jurídica para os
Oficiais.
Por
fim, em conclusão, o nosso entendimento, é que, o
trabalho policial, ainda é objeto de discriminação
na própria Polícia Militar, uma vez que a Cúpula
não aceita e dificulta a unificação das carreiras,
condição indispensável para a criação
de uma profissão no âmbito da Polícia Ostensiva.
O pensamento
é que as atividades típicas de polícia ostensiva
são menos relevantes e possuem status inferior as carreiras
jurídicas, e, por isto, menos valorizadas.
Mas,
como não é possível carreira jurídica
para todos, pelo menos os Oficiais devem receber estes Status, que
na essência não integra o trabalho Policial Militar,
pois, a admitir-se este entendimento, estaria comprometida a atuação
dos Oficiais que exerceram a função sem a titulação
exigida antes da com a aprovação do projeto.
Por
fim, o que mais assusta, não é o empenho dos Comandos
e das entidades representativas dos Oficiais em buscar os seus interesses,
e sim, o apoio e o esforço de lideranças dos policiais
da base, na tentativa de fazer crer que não houve tratamento
diferenciado para Oficiais e praças, e ainda, que os praças
não tiveram qualquer prejuízo.
Isto
é ignorar o poder de crítica das pessoas, dando margem
inclusive, para uma reflexão, se estas lideranças
não estariam receosas, do mesmo modo que os Comandos, em
ter maiores dificuldades para exercer a representação
de militares com curso superior. Pessoalmente, eu lamento, que todo
o esforço, que fizemos juntamente com um grupo de Oficiais,
após a greve de 97, para mudar a estrutura da Polícia,
através da implantação da carreira única,
pelo fim do tratamento diferenciado entre as carreiras, bem como
os ideais daquele movimento social, estejam sendo abondonados. Lamentável.
Domingos
Savio de Mendonca, Ten - Cel PM
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