|
 |
O sindicalismo brasileiro
atravessa um momento "triste", com uma dependência
da máquina do Estado que não se via
desde os tempos do getulismo - quando os sindicatos
livres foram suprimidos.
|
|
06/05/2008
Para o pesquisador Ricardo Antunes, o sindicalismo
brasileiro atravessa um momento "triste", com uma dependência
da máquina do Estado que não se via desde os tempos
do getulismo - quando os sindicatos livres foram suprimidos.
O pesquisador Ricardo Antunes, professor titular de sociologia da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisa questões
relacionadas à organização dos trabalhadores
desde os anos 70 e é um dos especialistas mais respeitados
nessa área no Brasil. Para ele, o sindicalismo brasileiro
atravessa um momento "triste", com uma dependência
da máquina do Estado que não se via desde os tempos
do getulismo - quando os sindicatos livres foram suprimidos. Segundo
Antunes, o governo atrai a cúpula dos sindicatos, federações
e também centrais sindicais com convites para cargos no governo
e a manutenção do imposto sindical - que no passado
foi condenado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT),
ligada ao PT. Ele chega a dizer que está ocorrendo um processo
de estatização sindical, ou reestatização,
já que repete a fórmula getulista.
O governo Lula conta com apoio de quase todas as centrais sindicais,
incluindo a Força Sindical - ex-arquiinimiga do PT, o partido
do presidente. Como o senhor vê isso?
Os dirigentes sindicais estão muito satisfeitos. Nos festejos
do 1º de Maio, o governo teve palanque tanto na festa da CUT
quanto na festa da Força. Isso configura o triste caminho
que atravessamos: o da reaproximação entre o Estado
e os sindicatos - cada vez mais servis e incapazes de organizar
os trabalhadores de modo autônomo. Está em curso um
processo de reestatização sindical no País.
Desde o getulismo, as centrais sindicais nunca dependeram tanto
do Estado para sobreviver quanto dependem agora.
Como ocorre na prática essa reestatização da
qual o senhor fala?
De um lado o governo fortaleceu e ampliou o imposto sindical, estendendo-o
até as centrais sindicais, que antes não participavam
dessa bolada; e do outro ampliou a presença de líderes
sindicais no aparelho do Estado. Hoje temos uma somatória
significativa de ex-dirigentes sindicais em ministérios,
secretarias, conselhos de empresas estatais e ex-estatais que foram
privatizadas.
O senhor esperava que o imposto sindical fosse mantido e até
ampliado, como aconteceu?
Quando Lula ganhou as eleições presidenciais foi possível
supor que antigas bandeiras da CUT fossem, enfim, vingar. Entre
elas estavam o fim do imposto sindical, o aumento do autonomia dos
sindicatos e o maior distanciamento entre eles e o Estado. Mas ocorreu
o contrário. A recente decisão do governo de incluir
as centrais na divisão do bolo do imposto sindical, com uma
fatia de 10%, seria inimaginável 15 anos atrás. O
que se observa é que os recursos estatais - entre eles o
FAT, o imposto sindical e outros - vão se tornando fundamentais
para a manutenção da vida nas centrais sindicais.
Ao invés de se ampliar a autonomia, ampliou-se a presença
do Estado. Nos anos 90, quando surgiram, a CUT e a Força
não dependiam do imposto sindical.
Qual a relação entre a situação atual
e a ocorrida no governo de Getúlio Vargas?
Com o getulismo iniciou-se no Brasil um processo de sindicalismo
de Estado, consolidado com a criação da CLT, em 1943.
O processo tinha vários pilares, entre os quais a unicidade
sindical: a categoria podia ter só um sindicato para representá-la.
Era impossível, por exemplo, a existência de dois sindicatos
dos metalúrgicos em São Paulo. Outro pilar foi o imposto
sindical, obrigatório desde 1939. Embora seu nome seja contribuição
sindical, trata-se de imposto - porque é compulsório
e atinge todos os trabalhadores, sindicalizados ou não. Vale
notar ainda que no getulismo só o Ministério do Trabalho
podia autorizar o funcionamento de sindicatos. Com esse recurso
o governo travou a ação das organizações
mais combativas, que eram quase sempre anarcossindicalistas. Por
fim, o sindicalismo tornou-se fortemente assistencialista - para
suprir a ausência dos sindicatos mais combativos.
Mas isso mudou com a Constituição de 1988, não?
Sim. O enquadramento dos sindicatos pelo Ministério do Trabalho
deixou de existir, o assistencialismo foi reduzido, mas a unicidade
sindical e o imposto foram mantidos.
Voltando a Getúlio, o senhor não acha que ele também
fez concessões aos trabalhadores?
Getúlio fez concessões, reprimiu e manipulou. À
medida que a legislação trabalhista foi sendo estabelecida,
com o salário mínimo, redução da jornada
de trabalho, estabelecimento do descanso semanal, o getulismo definiu
que só poderia ter acesso a esses direitos pessoas filiadas
ao sindicato oficial - reconhecido pelo governo. Era mais um passo
para reprimir os sindicatos independentes e combativos. Getúlio
passou para a história como o pai dos pobres, mas na verdade
foi a mãe dos ricos.
Lula também tem ligação forte com os mais pobres
- como mostra o crescimento de sua popularidade.
O "ibope" do presidente sobe porque ele fala e os pobres
entendem. Mas o governo dele é multiclassista. A cúpula
sindical, depois que ganhou maior inserção estatal,
lhe dá sustentação; e entre os setores do grande
capital não tem nenhum descontente com a política
econômica. Enfim, garante a boa vida dos ricos, garante espaço
para as lideranças sindicais e aumenta sua base nas classes
pobres.
São esses pobres que garantem sua popularidade?
Vale registrar a migração que houve no governo Lula
em relação à sua base de sustentação.
Ela foi transferida dos trabalhadores organizados, assalariados
e funcionários públicos, para a classe trabalhadora
mais pauperizada, que vive de trabalhos esporádicos, sub-remunerados,
nos grotões do País. Migrou de uma classe politizada
para outra que depende do Estado para obter uma ração
mínima.
São 11 milhões de famílias.
Sim. São quase 60 milhões de pessoas que perceberam
que a política assistencial do Lula é mais ampla que
a dos governos anteriores. O governo de Getúlio tinha traços
de semibonapartismo, carisma e a imagem de pai dos pobres. O atual
governo também tem traços de semibonapartismo, combinados
com certo messianismo.
Como se manifesta o semibonapartismo de Lula?
Embora tenha origem na classe trabalhadora, o governo Lula representa
as classes dominantes. E representa plenamente, sem delas fazer
parte. Isso ocorre em diversos momentos ao longo da história,
quando os de cima recorrem a um governo alternativo para garantir
a ordem, uma vez que enfrentam dificuldades para fazer isso por
conta própria. No caso brasileiro, os que mais se aproximaram
do bonapartismo foram Vargas, Jânio Quadros e, agora, Lula,
que tem carisma, conta com apoio policlassista e cuida de preservar
a ordem. Ele é um paladino da ordem.
Fonte: O Estado de São Paulo
|
Veja
a situação de algumas delegacias na Paraíba |