DESMILITARIZAR
A POLÍCIA
No Brasil há
muita polícia e pouco policiamento. Com efeito, estão
previstas na Constituição oito organizações
policiais autônomas, com diferentes áreas de atuação,
o que deveria significar que a ordem legal está assegurada
em toda as atividades que interessam à sociedade brasileira
e que a criminalidade está mantida em nível baixo,
não havendo motivo para que as pessoas sintam insegurança
e vivam com medo. Quem não conhecer o Brasil e tomar conhecimento
da existência dessa pluralidade de organizações
policiais irá concluir que não há espaço
para ofensas à segurança pública, à
vida e à integridade física das pessoas, bem como
ao patrimônio. A realidade, entretanto, é outra.
Muitas pessoas, sobretudo
nas grandes cidades, vivem com medo, sentindo-se inseguras, na
expectativa de sofrer algum tipo de violência ou de ser
vítima de alguma ofensa à pessoa ou ao patrimônio
a qualquer momento. A par disso, é público e notório
que um dos negócios mais rendosos do Brasil é a
segurança privada, o que já deve fazer pensar.Evidentemente,
é mais do que tempo de se promover um debate sério
e objetivo, sem arroubos demagógicos e sem falsa indignação,
livre da influência de interesses corporativos, buscando
a definição de uma política de segurança
para todo o país, para as regiões e as cidades,
e o estabelecimento de um sistema policial integrado, em que uma
polícia saiba o que a outra está fazendo e todas
atuem com espírito de colaboração, colocando
acima de tudo o interesse público. Essa é uma idéia
que deve ser proposta desde já para ser amadurecida, a
fim de que as pessoas e entidades realmente interessadas no encontro
de boas soluções e capazes de dar contribuição
relevante comecem a pensar seriamente no assunto.
Como contribuição
a esse debate, seria importante que desde já se considerasse
com seriedade, sem preconceitos ou reservas de qualquer natureza,
a desmilitarização das Polícias Militares.
Seria injusto negar que essas polícias têm dado contribuição
positiva para a segurança pública no Brasil, mas
seria também fugir à realidade não reconhecer
que grande número de problemas graves de segurança
pública, inclusive violência e corrupção,
têm origem no caráter militar, absolutamente impróprio,
dessas corporações.
Com efeito, diz a
Constituição que às Polícias Militares,
organizadas pelos Estados e pelo Distrito Federal, cabem a polícia
ostensiva e a preservação da ordem pública.
Elas são, portanto, serviços públicos essenciais,
ligados à manutenção da ordem pública
interna, sendo de sua responsabilidade uma constante ação
de vigilância e prevenção, devendo fazer-se
visíveis dia e noite, a fim de impedir a existência
de situações que sejam propícias à
quebra da ordem legal e à ofensa aos direitos que ela consagra.
A função
das Polícias Militares é prestar serviços
ao seu próprio povo e não enfrentar inimigos. Já
o fato de estar instalada em quartéis e ser, por isso,
de difícil acesso, afasta essas polícias do povo.
A par disso, a graduação militar de seus membros
e o uso de fardamento militar, em lugar de um uniforme civil,
lembram muito mais um exército do que uma polícia,
sendo também um fator de distanciamento.
Acrescentem-se a isso
os privilégios absurdos assegurados aos seus integrantes,
quando praticam irregularidades graves ou crimes, não havendo
como negar que os policiais militares envolvidos na prática
de crimes têm sido muito beneficiados pela proteção
corporativa, em prejuízo da eficiência e da autoridade
da organização. É tempo de pensar seriamente
nos grandes benefícios que resultariam da desmilitarização
dessas polícias, fazendo delas verdadeiros integrantes
da ordem civil que devem proteger.
Dalmo Dallari é:
Professor e Jurista
Artigo originalmente publicado no site de notícias JB Online