
Rubens
Nóbrega - Quinta, 1 de Abril de 2010
As
janelas de Manaíra
Evidente que não
se pode creditar à ineficiência do aparelho policial
a ocorrência de crimes como o seqüestro que terminou
na madrugada de ontem na Capital com reféns libertados,
bandidos presos e um soldado da PM entre a vida e morte no Hospital
de Trauma, ferido a bala que foi em troca de tiros com os seqüestradores.
É claro que uma ação como essa é planejada
e executada, muitas vezes com sucesso, aqui ou em qualquer outro
lugar do mundo. Do presidente dos Estados Unidos ao pipoqueiro
da esquina, ninguém está livre de ser alcançado
pela premeditação criminosa e ser vítima
de um atentado que nos tire a vida ou coisa pior.
O problema é que na Paraíba de agora, particularmente
na região metropolitana de João Pessoa, a sensação
é de uma insegurança crescente, de uma escalada
de violência sem precedentes. Tudo por conta de crimes que
se sucedem e se repetem com a mesma intensidade e freqüência
com que o governo desprotege o cidadão e desprioriza funções
que são a própria razão de ser do Estado,
como prover segurança.
Com esses conceitos, pensamento e visão deve concordar
o Promotor de Justiça Arlindo Corrêa Neto, presidente
da Associação Paraibana do Ministério Público
(APMP), que no último dia 25 enviou-me belíssimo
ensaio sobre o estágio de violência a que chegamos
na Paraíba.
Sob o título ‘Manaíra: Vidraças Quebradas
“Retrato da Incompetência”, o escrito é
bastante contundente na crítica, ao mesmo tempo super producente
na oferta de alternativas, saídas e soluções
para o enfrentamento do problema que tanto nos aflige e coloca
sob suspeita, mais uma vez, a propalada prioridade dada pelo governador
José Maranhão (PMDB) à questão da
segurança pública.
Vou reproduzir abaixo alguns excertos do excelente artigo do Doutor
Arlindo Corrêa Neto, que escreveu bem antes do acontecimento
da noite de terça e madrugada dessa quarta, lógico,
mas certamente motivado pela recorrência assustadora de
crimes recentíssimos que resultaram na eliminação
de vidas humanas no bairro de Manaíra.
‘Descalabro’
O medo encontra-se
estampado no rosto das pessoas e se cristaliza de forma brutal
na paisagem urbana das grandes e médias cidades do Estado
da Paraíba, refletindo uma tendência nacional do
aumento da criminalidade pela falta de uma política de
segurança pública e pela tolerância, conivência
ou despreparo das autoridades constitucionalmente destinadas para
prevenir, reprimir e debelar o crime.
Exemplo clássico desse descalabro é a cidade de
João Pessoa, em especial o Bairro de Manaíra, palco
recente de mortes, roubos, seqüestro, furtos, estupros e
linchamentos. No recente caso do linchamento de assaltantes, cidadãos
comuns, cumpridores da lei, em desespero, ousam fazer justiça
com as próprias mãos, tendo em vista, o vácuo
deixado pelo Estado. Um alerta assustador!
Pirotecnia
As ruas estão
desertas, os muros cada vez mais altos e as casas guarnecidas
por cercas elétricas, cães de guarda e vigilantes
especialmente contratados. Enquanto isso, o poder público
usa um discurso ambíguo e frágil, adota operações
pirotécnicas e enreda-se, cada vez mais, na teia da incompetência
e da mentira.
Os cidadãos reclamam, os discursos vazios se repetem: efetivo
pequeno; falta de combustível; a justiça não
pune pequenos ofensores ou criminosos primários; as penitenciárias
estão lotadas. Quando um crime grave ocorre, agora semanalmente,
viaturas passam a circular nas ruas com o giroflex ligado, em
alta velocidade e uma ou outra “prisão” é
efetuada. No fundo, não há prisão alguma...
Os próprios “comandantes” das favelas e lugares
marginalizados entregam o autor para que não sejam perturbados,
doravante.
Tolerância
zero
O Estado necessita
sair da inércia e apresentar um plano de segurança
pública ao estilo e no espírito da política
das vidraças quebradas e da tolerância zero. Urge
que as instituições responsáveis pela prevenção,
combate e repressão ao crime estejam irmanadas. Hoje, vivemos
uma Babel, os órgão atuam isoladamente. Polícia
Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia
Civil, Polícia Militar, Ministério Público
e Poder Judiciário, salvo em operações de
grande porte, não estão conectados, agem de forma
desconexa.
Psicólogos sociais e policiais especializados tendem a
concordar que se uma janela em um prédio é quebrada
e deixada sem conserto, todas as demais janelas brevemente serão
quebradas. (...) A quebra de janelas não necessariamente
ocorre em uma larga escala, pois algumas áreas são
habitadas por determinados “quebradores de janelas”
enquanto que outras são povoadas por “amigos de janelas”;
especificamente, uma janela não consertada é sinal
de que ninguém liga, e então quebrar mais janelas
não custa nada.
Na mão inversa, quando a polícia deixa de cumprir
a sua destinação constitucional e se acovarda, é
conivente ou incompetente, compactuando com a desordem reinante,
estimula que outras vidraças sejam quebradas. O ato criminoso
de um cidadão influencia atos seguintes de outros, ao não
haver punição. Essa teoria justifica que se reprima
o crime tão logo ele aconteça, a fim de que outros
crimes piores não acabem acontecendo. Tal concepção
está no sucesso da política de tolerância
zero implantada em New York pelo Prefeito Rudolph Giuliani, no
início dos anos 90, e em Medellin, na Colômbia.
Estamos em um estágio onde ainda há conserto, desde
que um plano de segurança pública seja efetivado
com o engajamento de todos os segmentos da sociedade, em todos
os níveis, em um verdadeiro pacto social. (...) Caso contrário,
as vidraças quebradas de Manaíra, retrato da incompetência
do poder estatal em matéria de segurança pública,
se espalhará por todos os bairros de João Pessoa
e da Paraíba.