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Rubens Nóbrega
- Sexta, 12 de Março de 2010
Manaíra
X São José
O assassinato da procuradora Méricles Feitosa,
ocorrido terça-feira última em Manaíra, Capital,
motivou indignada manifestação da cidadã Kátia
Brito, de João Pessoa.
Ela escreveu ao colunista criticando duramente o Governo do Estado
pela insegurança naquele bairro. Ao mesmo tempo, questiona
a alegada honestidade da maioria dos moradores do São José.
O São José é aquele bairro pobre estigmatizado
como refúgio ou base operacional de bandidos que traficam
drogas, matam e assaltam pessoas na Capital, a maioria das quais
moradores do vizinho abastado que é Manaíra.
Vamos ao que diz a Doutora Kátia. Depois eu volto.
Queridíssimo jornalista Rubens,
Mais uma vítima fatal da violência
e da falta de senso da Polícia do Estado. Quantos cadáveres
ainda vão ter que cruzar a porta do IML para que a Polícia
tome uma atitude digna que justifique a imensidão de dinheiro
que o governo diz investir?
Hoje é uma procuradora que morre. Semana passada foi a casa
do sogro de Benjamin Maranhão, na qual tentaram entrar armados
com uma espingarda doze. E assim vai, de cadáver em cadáver,
diante da inoperância de uma Polícia mal paga e despreparada.
(Dava para? se ver na reportagem da tv os soldados com medo, olhos
arregalados e dedo no gatilho... Ai de um gato que ali passasse
e os assustasse, pelo simples fato de entrar no Bairro São
José). Até quando vamos permitir tal disparate?
Essa coisa de dizer?que?no São José 90% são
honestos e 10% desonestos é pura? mentira. Veja só:
quem compra roubo é ladrão do mesmo jeito. O “honesto”
pedreiro que sai de casa todo dia montado em uma bicicleta de quadro
de alumínio e amortecedores luxuosíssimos, onde arranjou
dinheiro para comprar? O vigia do meu prédio, morador do
BSJ, que tem um salário de 640 reais, tem uma TV de 42 polegadas
de LCD no seu quarto, a filha dele possui um notebook da Apple e
a outra possui um IPod. Ele é um honesto trabalhador fazendo
parte dos 90% acima citados?
Quando vou andar de manhã cedinho na praia fico observando
os “trabalhadores” do BSJ. Cada um com?um celular MP11,
caríssimo, outros de tênis da Nike, colar de ouro,
pulseiras e assim por diante. Quem compra roubo é honesto?
100% do que é roubado em Manaíra é vendido
aos moradores do BSJ. E esses moradores são financistas do
crime, do tráfico e da violência que assola os lares
em Manaíra.
É uma equação de lógica, caríssimo
jornalista. Se a Polícia montar fronteira na saída
do BSJ e exigir documentação, tipo nota fiscal,? pode
colocar à disposição para transporte várias
carretas que com certeza sairão lotadas de tanta coisa roubada.
O bairro de Manaíra pede socorro. E ninguém faz nada.
Parece que todo mundo está de braços cruzados. Vamos
lembrar disso na hora de dar um voto para governador.
Se
me permite, caríssima
Ouso
discordar da sua avaliação sobre os moradores do São
José para insistir que 99% deles – e não 90%
– são honestos. Baseio minha projeção
até mesmo nos exemplos citados. Somados, incluindo as duas
filhas do porteiro, não chegam a uma dúzia. Mesmo
considerando o número indefinido dos pretensos trabalhadores
observados por você. Não tire todos por esses, peço-lhe.
De outro lado, concordo com quase tudo o que você diz sobre
a nossa Polícia, principalmente quanto à falta de
senso, atitude, preparo e, sobretudo, remuneração
digna. Só faço um reparo, não ao seu texto,
mas ao que muita gente pode inferir de tal afirmação:
temos que culpar os comandantes, começando pelo governador,
e não a tropa.
Pra encerrar, caríssima, devo confessar que a sua carta me
chamou a atenção para um detalhe preocupante: quando,
semana passada, antes da morte da procuradora, portanto, foi anunciada
uma operação no complexo Manaíra-São
José, fiquei contente. Pensei que se tratava de uma ação
planejada e executada em atenção às necessidades
e respeito aos moradores do lugar. Mas aí você me escreve
e me deixa uma tremenda dúvida. Quer dizer que tudo aquilo
foi por que tentaram invadir a casa do sogro do sobrinho do governador,
foi?
Da mesma forma, como bem observou ontem o jornalista Josival Pereira
no programa Correio Debate (98 FM), é triste perceber que,
na maioria das vezes, a Polícia da Paraíba cai em
campo com sua tropa de elite - com garra e vontade de resolver a
parada – somente quando acontece alguma desgraça com
alguém importante, de classe média alta pra cima ou,
então, parente próximo, aliado de algum poderoso ou
amigo do rei da hora.
Nos dois casos - do sogro do ex-deputado Benjamin Maranhão
e da procuradora - a rapidez e eficácia da ação
policial contra os pretensos autores dos crimes apenas reforçam
a suspeita de Josival, minha e de boa parte da torcidas de Vasco
e Flamengo juntas: na Paraíba, segurança e resolução
policial são hoje artigos de luxo, acessíveis, portanto,
apenas à camada vip da população.
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Veja
a situação de algumas delegacias na Paraíba |