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PROGRAMA
NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (PNDH-3). VERDADE, JUSTIÇA
E REPARAÇÃO. ENTREVISTA ESPECIAL COM JAIR KRISCHKE
Com a polêmica
levantada pelo decreto de criação da terceira versão
do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que propõe
a criação de uma comissão especial para revogar
a Lei de Anistia de 1979, abrem-se as feridas do passado, mas
que ainda não estão curadas.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, chegou a colocar seu cargo
à disposição, o que levou três comandantes
das Forças Armadas a decidir que também deixariam
seus cargos, caso a saída de Jobim fosse consumada. Além
disso, o plano também recebeu críticas do ministro
da Agricultura, Reinhold Stephanes, e da senadora Kátia
Abreu (DEM-TO) sobre as questões agrícolas e de
reintegração de posse de terras invadidas.
Mas essas críticas, segundo o historiador Jair Krischke,
coordenador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos
do Rio Grande do Sul, são “uma grande pantomima”.
“Está tudo muito bem encenado – continua –,
não é sério”. Para Krischke, tudo isso
é “uma fantasia” para que o presidente Lula,
no final do seu governo, possa se lavar as mãos. “Mas
ele não fez nada”, resume o historiador, não
economizando fortes críticas às Forças Armadas
e à covardia dos militares diante da verdade.
A saída, afirma Krischke, é criar uma Comissão
de Verdade, cuja proposta, “que é comum ao mundo
todo, é verdade, justiça e reparação”.
“Ela apenas vai investigar, não vai julgar nem execrar
ninguém. Ela vai encaminhar para a Justiça o que
tiver para ser encaminhado”.
Jair Krischke, formado em História pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, é ativista dos direitos humanos no
Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai. Em 1979, fundou
o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande
do Sul, a principal organização não-governamental
ligada aos Direitos Humanos da Região Sul do Brasil. Também
é o fundador do Comitê de Solidariedade com o Povo
Chileno.
Confira a entrevista.
IHU ON-LINE – COMO PODEMOS COMPREENDER A REAÇÃO
DOS MINISTROS E DO SETOR MILITAR AO 3º PROGRAMA NACIONAL
DE DIREITOS HUMANOS (PNDH-3)?
Jair
Krischke – Isso é uma grande pantomima. Está
tudo muito bem encenado, não é sério. E eu
digo isso porque acompanhei as tratativas. Esse programa deveria
ter sido anunciado no dia 09 de dezembro, véspera do dia
em que se comemora A Declaração Universal dos Direitos
do Homem. E não foi. Havia por parte do ministro Jobim uma
grande resistência. Ele não queria saber da ação
de jeito nenhum. E se contrapõe a isso o ministro Tarso Genro,
que disse que entende que precisa haver uma Comissão da Verdade.
O anúncio acabou sendo feito no dia 21 de dezembro, bastante
tempo depois. Perdeu até aquela época própria
em que o anúncio havia sido pensado.
“É PRECISO CRIAR UMA COMISSÃO DE VERDADE. ELA
VAI APENAS INVESTIGAR, NÃO VAI JULGAR NEM EXECRAR NINGUÉM”
Na verdade,
do que se trata? É um decreto que cria uma comissão
que irá elaborar um projeto, e tem o prazo até abril
para fazê-lo. Esse projeto, então, depois, será
objeto, claro, de uma análise por parte da presidência
da República, para enviar ao Congresso Nacional um projeto
de lei. Nós que vivemos no Brasil sabemos que este ano é
um ano eleitoral. Ora, essa comissão que trata do decreto
sequer já está nomeada, nem se sabe quem serão,
não se sabe se terminará sua tarefa em abril. E ,
terminada em abril, suponhamos, não se sabe quando o presidente
enviará ao Congresso o projeto de lei. Isso não será
examinado no Congresso neste ano. Então, o presidente Lula
terminará o seu mandato, e talvez lá adiante –
sabe-se lá quem será eleito – é que se
virá a discutir esse tema no Congresso Nacional. Se esse
assunto fosse examinado pelo Conselho Nacional de Propaganda, poderia
ser considerado “publicidade enganosa”. O presidente
Lula termina o seu governo dizendo: “Olha, eu tentei fazer.
Vejam, eu tentei, eu quis fazer. Não deu”. Vamos examinar
um pouco como tem sido o perfil do presidente Lula sobre essa matéria.
Até hoje – já estamos entrando no oitavo ano
–, o presidente Lula não recebeu, oficialmente, lá
no seu gabinete da presidência, os familiares dos mortos e
desaparecidos para ouvi-los.
IHU ON-LINE – QUAIS SÃO OS MAIORES INTERESSES QUE SE
COLOCAM CONTRA A COMISSÃO DE VERDADE DO PNDH? HÁ FATOS
SOBRE OS QUAIS É “CONVENIENTE” CALAR E ESQUECER?
Jair
Krischke – Tudo isso não é novo. Sabemos que
os arquivos da Guerra do Paraguai – e lá se vão
mais de 100 anos – não estão acessíveis,
não estão abertos. Por quê? Porque certamente
o Exército brasileiro cometeu tantas atrocidades que se envergonhariam
hoje se isso fosse exibido. O mesmo se dá com esse período
da repressão. E o que me surpreende muito é que hoje
todos os comandantes das Forças Armadas (Marinha, Exército
e Aviação), todos eles, não têm nada
a ver com esse período. Nós não temos, hoje,
oficiais generais na ativa que tenham a ver com esse tempo obscuro
e nefasto. Mas, por um espírito de corpo equivocado, eles
assumem essas mazelas, das quais eles não têm responsabilidade
nenhuma, e que, sim, foram produzidas por indivíduos. Nós
não podemos sequer acusar as Forças Armadas de forma
geral. Mas eram indivíduos que estavam dentro das Forças
Armadas, como estavam também alguns servidores civis, das
polícias, que cometeram essas atrocidades e que deverão
pagar pelos seus crimes. Então, com essa postura [de esconder
o passado], nós vamos consolidando no Brasil a cultura da
impunidade. Isso é muito grave em um país que quer
se dizer civilizado.
IHU ON-LINE – EM QUE ASPECTOS ESSA REAÇÃO DOS
CHEFES DAS FORÇAS ARMADAS E DO MINISTRO DA DEFESA, NELSON
JOBIM, REPRESENTAM UM RETROCESSO AOS DIREITOS HUMANOS EM NOSSO PAÍS
E FEREM O DIREITO DOS CIDADÃOS À MEMÓRIA E
À VERDADE?
Jair
Krischke – Se olharmos aqui para a região, em todo
o Conesul da América que foi vítima dessa mesma coisa,
os países vão abrindo os seus arquivos, as Supremas
Cortes vão declarando inconstitucionais essas leis de anistia.
Na Argentina é a lei “Ponto Final e Obediência
Devida”, no Uruguai é a “Lei de Caducidad”,
no Chile estão declarando que é inconstitucional.
E no Brasil nós vamos, de forma muitíssimo atrasada,
tratando desse assunto. Vai se cometendo uma tremenda injustiça,
especialmente com os familiares dos mortos e desaparecidos, porque
estes ainda não foram anistiados. Porque enquanto não
forem julgados os paradeiros dos restos mortais dos entes queridos,
eles continuarão absolutamente à margem da anistia.
Isso é uma dívida que todos nós temos. Em termos
históricos, nós precisamos saber o que aconteceu.
A partir desse conhecimento, nós temos que fabricar os anticorpos
democráticos, para que isso não se repita. Por isso,
é muito importante para a consolidação do processo
democrático que avancemos, que se abram os arquivos, que
se celebre a verdade.
“A PROPOSTA QUE TEM PROSPERADO NO MUNDO INTEIRO É DE
UMA COMISSÃO DA VERDADE. E O QUE É COMUM AO MUNDO
TODO É VERDADE, JUSTIÇA E REPARAÇÃO”
A proposta
que tem prosperado no mundo inteiro é de uma Comissão
da Verdade. Nós temos exemplos dessas Comissões de
Verdade na África do Sul, na Guatemala, no El Salvador, aqui
no Peru, no Chile. No começo de novembro, eu estive participando
de um curso, inclusive patrocinado pela ONU e pelo nosso ministério
da Justiça, intitulado “Comissões de Verdade”.
E a proposta, que é comum ao mundo todo, é verdade,
justiça e reparação. Em termos de verdade,
nós precisamos abrir os arquivos, nós precisamos saber
o que aconteceu, quem é o responsável. Temos que,
a partir da verdade, celebrar a justiça, temos que punir
os responsáveis. E depois partir para a reparação.
E no Brasil nós invertemos, nós começamos com
a reparação: “Cale-se, não falemos mais
disso”. Enquanto nós tínhamos que ter começado
pela verdade. Mas ainda temos essa oportunidade de avançar.
E isso é uma exigência não só da cidadania,
mas também da democracia. Estamos atrasadíssimos.
IHU On-Line – Se o Brasil deveria seguir o exemplo da Argentina
e dos demais países e abrir os arquivos da ditadura, o que
falta para que isso ocorra?
Jair Krischke – Vontade política. O presidente da República
é comandante-em-chefe das Forças Armadas. Então,
uma ordem dele, dentro de organizações cujo princípio
é a hierarquia, tem que ser cumprida. Nós temos, desde
outubro de 2007, uma sentença do Supremo mandando que o Exército
abra os arquivos da Guerrilha do Araguaia. Até agora, nada.
Mas o nosso nem tão ilustre ministro da Defesa, Nelson Jobim,
nosso conterrâneo [nascido em Santa Maria , no Rio Grande
do Sul], criou uma comissão, comandada por um general que
tem ido ao Araguaia procurar os corpos. Mas a sentença não
tratou disso. A sentença mandou abrir os arquivos! E que,
a partir do exame dos arquivos, se fosse lá buscar os corpos.
E ele saiu correndo atrás dos corpos. É uma manobra
diversionista. Então, isso vai dando muito o perfil desse
governo.
“OS VALENTES MILITARES BRASILEIROS TÊM MEDO DE UMA COISA
TÃO SINGELA CHAMADA VERDADE? ACOVARDAM-SE FRENTE À
VERDADE?”
Nós
tivemos um caso em São Paulo , no ano passado, em que a Justiça
Federal condenou o nosso outro conterrâneo, também
de Santa Maria, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Condenou
a quê? Condenou-o torturador. Foi uma ação declaratória.
Uma coisa singela: não pedia uma reparação,
não pedia um centavo de indenização e não
era criminal, não pedia nem cinco minutos na prisão.
Pedia apenas a declaração: “Declare-se o coronel
Carlos Alberto Brilhante Ustra um torturador”. A Justiça
Federal de São Paulo, em sentença memorável,
disse que sim: o coronel foi um torturador. O “ilustre”
advogado geral da União, que agora o presidente Lula mandou
para o Supremo, doutor [José Antônio] Toffoli, recorreu
em nome do governo dessa sentença, apenas declaratória.
Eu cito esses casos para que se veja o ânimo que tem movido
o governo Lula. É por isso que eu digo que esse decreto é
para não acontecer, é a falta de vontade política.
Ele [o presidente] vai terminar o seu governo dizendo: “Olha,
eu mandei, eu fiz um decreto. Está lá no Congresso”.
Mas ele podia ter mandado há muito tempo atrás, já
mandado um projeto de lei. Dentro do governo, tem pessoas altamente
qualificadas para propor. Não precisaria criar uma comissão
para isso.
IHU ON-LINE – QUAL É A FUNDAMENTAÇÃO
DO ARGUMENTO DO MINISTRO JOBIM, QUE QUALIFICA O PNDH COMO REVANCHISTA?
Jair
Krischke – É porque hoje ele se identificou com os
militares. E quer aparecer em fotografias fardado. Existe coisa
mais ridícula do que isso? Um velho, gordo, fardado de militar
e segurando uma cobra, lá no batalhão da selva (foto).
Mas o que é isso? Ele assumiu esse viés equivocado,
e eu até duvido que seja um pensamento da maioria das Forças
Armadas – acho que não, é dos setores mais retrógrados,
sim. Essa coisa toda de que ele apresentou pedido de demissão…
Olha, quem quer se demitir se demite. “Vou-me embora”,
pronto. Então tudo isso é uma fantasia para que o
presidente Lula, no final do seu governo, possa dizer: “Eu
propus”. Mas não fez nada.
IHU ON-LINE – E ESSA POSTURA REFLETE A IMPUNIDADE E A IMUNIDADE
EM NOSSO PAÍS.
Jair
Krischke – Exatamente. E isso, lamentavelmente, vai se consolidando
e vai se estendendo para outros campos. É uma pena, porque,
quando se lida com o passado, cada dia que passa é um prejuízo.
Quando você toca em um determinado documento, você que
tem uma referência: fala do Fulano. E você vai correndo
tentar falar com o Fulano. Mas o Fulano já se mudou, foi,
por exemplo, para Campo Grande. Mas eu levo tempo para descobrir
que ele chegou em Campo Grande. E descubro que ele agora está
em Fortaleza. Sabe ? Todo o tempo que você vai demorar…
E fora aqueles que já morreram e que poderiam nos ajudar
a esclarecer. O tempo é terrível para nós.
Quanto mais o tempo passa, pior para a gente reconstituir esse passado.
IHU ON-LINE – CONSIDERANDO QUE CRIMES CONTRA A HUMANIDADE
NÃO PRESCREVEM, POR QUE POLÍTICOS COMO O GOVERNADOR
PARANAENSE, ROBERTO REQUIÃO, OU O MINISTRO DA DEFESA, NELSON
JOBIM, ALÉM DOS CHEFES DAS FORÇAS ARMADAS, NÃO
QUEREM RESGATAR “COISAS QUE OCORRERAM HÁ 40 ANOS”,
COMO É O CASO DA TORTURA EMPREENDIDA PELO ESTADO BRASILEIRO?
Jair
Krischke – Esses são os apóstolos da impunidade.
Porque, na verdade, sabe o que vai acontecer? Num belo dia, e não
está longe, cortes internacionais vão exigir do Brasil.
Do Araguaia, há um processo contra o Brasil na Corte Interamericana,
que certamente vai determinar que o Brasil abra os arquivos e resolva.
O Brasil será sancionado internacionalmente por manter essa
postura. Nós vamos pagar um vexame internacional por manter
essa coisa. E eu ouvi o Requião, o líder do PSDB no
Senado, [Artur Virgílio, PSDB-AM], dizendo também
essa mesma coisa: “Não, não convém”.
“ATÉ HOJE – JÁ ESTAMOS ENTRANDO NO OITAVO
ANO –, LULA NÃO RECEBEU, OFICIALMENTE, OS FAMILIARES
DOS MORTOS E DESAPARECIDOS”
Isso
não é nada de vingança, não é
nada de revanchismo. É colocar as coisas nos devidos lugares
e dizer claramente quem fez o que, quem é responsável.
Uma outra coisa que se ouve muitíssimo por aí é
que a Anistia foi para todos os lados. Quem é jovem cresceu
ouvindo isso. Mas isso é uma arrematada mentira! Leiam a
Lei de Anistia. Eu sempre digo: basta ser minimamente alfabetizado,
é só ler o que está escrito ali. Os chamados
crimes de sangue não foram anistiados. Muitos presos políticos,
acusados de terem cometido crimes de sangue, mesmo depois do dia
28 de agosto de 1979, que é a data da Anistia, continuaram
presos. Se procurarmos na imprensa, no mês de fevereiro de
1980, seis meses depois da Anistia, num presídio em São
Paulo , houve greve de fome de presos políticos. Então,
quem cometeu crimes de sangue, crimes de lesa humanidade, esses
continuaram presos. Agora, e os agentes do Estado, militares ou
civis? Eu não tenho notícia de que algum deles tenha
passado cinco segundos dentro de uma prisão. Então,
não é igual, não. E tortura, desaparição
de pessoas, isso não é crime político. Porque
a Anistia foi para crimes políticos e conexos. Os agentes
do Estado cometeram crimes de lesa humanidade, não são
nem crimes políticos nem tampouco conexos. Portanto, vamos
ler com atenção o que está escrito na lei e
vamos deixar de dar uma interpretação, que é
minimamente oportunista, dizendo “Olha, veremos tudo”.
Isso não é verdade.
IHU ON-LINE – QUE OUTRAS MEDIDAS PODEM SER TOMADAS A PARTIR
DE AGORA, PARA REVERTER OS DESENVOLVIMENTOS OCORRIDOS A PARTIR DA
PROPOSTA DO PNDH-3?
Jair
Krischke – Criar uma Comissão de Verdade, que tenha
poderes para requisitar documentos. E depois uma Comissão
de Verdade é uma comissão investigativa. Ela deve
ter poderes de entrar num quartel, examinar os documentos que tenha,
entrar em qualquer repartição pública em busca
de documentos, buscar os documentos onde for. Só que ela
não vai julgar ninguém, ela vai reunir elementos.
Porque quem julga é a Justiça. E na Justiça
será dado a esses senhores pleno direito de defesa, coisa
que eles não deram às suas vítimas. A eles
será dado. E eu me baterei em qualquer lugar do mundo para
que a eles seja garantido o amplo direito de defesa. Essa Comissão
de Verdade apenas vai investigar, não vai julgar nem execrar
ninguém. Ela vai encaminhar para a Justiça o que tiver
para ser encaminhado.
Eu sempre digo assim: os valentes militares brasileiros têm
medo de uma coisa tão singela chamada verdade? Acovardam-se
frente à verdade? Não fazem jus àqueles que
um dia foram lá nos campos da Itália, lutar e com
a sua vida defender a liberdade. Envergonham, isso sim, a farda
que usam.
(Reportagem de Moisés Sbardelotto)
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