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CRISE ECONÔMICO-FINANCEIRA GLOBAL & A SEGURANÇA
PÚBLICA: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMPOS ATUAIS
E PERSPECTIVAS DA CRISE NO BRASIL
Por: George Felipe de Lima Dantas
Fonte - Cobrapol
Existe uma grave crise econômica-financeira global em curso
entre os meses de setembro e outubro de 2008. Ela faz evocar a crise
da bolsa de valores norte-americana de 1929 – da qual decorreu
a chamada "Grande Depressão" – com implicações
do seu significado na reconfiguração da economia mundial
do início do século XX. Evidentemente que não
poupou o Brasil de então.
Esta nova crise global começou a mostrar seus sinais com
a falência de grandes instituições financeiras
norte-americanas, particularmente do ramo imobiliário, o
que vem se alastrando por outras instituições bancárias
daquele país e da Europa, já alcançando, em
seus reflexos, até mesmo os mercados de capital asiáticos.
Ela inclui quedas nunca vistas, no passado recente, do valor de
ações e "commodities", com desdobramentos
na liquidez da economia global, fortemente dependente dos Estados
Unidos da América.
O problema é de tamanha ordem que os líderes das principais
nações do mundo buscam coordenar esforços,
em nível global, em um movimento sem precedente histórico,
no sentido de reduzir a desconfiança dos investidores e promover
medidas de estabilização econômico-financeira.
Mas a crise, ao que tudo indica, continuará, como um ser
com vida própria, delineando seus próprios contornos,
reconfigurando antigas certezas e criando novas expectativas. O
momento histórico é de incerteza. Em um mundo globalizado,
há que estar preparado em termos políticos, econômicos
e sociais para as consequências de tudo isso.
SE NÃO HÁ SEGURANÇA ECONÔMICA,
QUE DIZER DA SEGURANÇA PÚBLICA?
As hipóteses são ambíguas acerca do impacto
da crise econômica sobre a segurança pública.
Um primeiro raciocínio, em tal ambiguidade, é aplicável
especificamente aos agentes e alvos da criminalidade de massa, ou
seja, do clássico "problema do crime". Tal "problema"
refere-se a uma delinquência dirigida predominantemente contra
o patrimônio, de conhecida incidência universal, sempre
várias vezes maior do que a da criminalidade interpessoal,
direta e que ocupa as manchetes, caso dos homicídios, sequestros,
agressões, etc.
De acordo com esse lado primeiro da ambiguidade, a criminalidade
de massa diminuiria, em sua feição contra o patrimônio,
ao menos momentaneamente, a ser verdadeira a premissa de que uma
súbita escassez de ativos financeiros, papel moeda inclusive,
bem como bens materiais em circulação, pudesse diminuir
a oferta de "alvos vantajosos". Isso porque diminuiriam
as pessoas e/ou valores sempre visados nos crimes contra o patrimônio.
A lógica essa seria de que haveria um menor número
de indivíduos "com dinheiro" e, por isso mesmo,
menos deles circulando no sentido de comprar ou vender. Assim, a
criminalidade tenderia a decrescer, pela diminuição
absoluta de "alvos", nesse momento histórico considerado.
Já em outra visão, paradoxal à primeira, a
"escassez absoluta" poderia fazer aumentar o contingente
de potenciais delinquentes, desempregados e/ou com a renda drasticamente
diminuída, em busca de qualquer tipo de "alvo",
o que faria com que o fenômeno da criminalidade violenta,
tanto contra o patrimônio quanto interpessoal, tendessem a
aumentar combinadamente, independente da oferta de "alvos vantajosos".
Seria a anomia da própria recessão, da perda de renda,
da fome e do desemprego, com uma desrazão bruta e ilógica
a lhe corresponder. A criminalidade teria uma feição
randômica, assacando contra tudo e contra todos, independente
da lógica do "ganho certo".
Necessário refletir também sobre a delinquência
dos "criminosos do colarinho branco", aquela dos mesmos
indivíduos que já manipulavam variáveis delitivas
que antecedem a própria crise atual, agentes de uma modalidade
delitiva genérica e que sempre buscaram, buscam e continuarão
buscando participar até mesmo dos desdobramentos, ainda não
tão óbvios, do transcurso da crise atual e mesmo dos
novos cenários delitivos de depois dela. É bem sabido
que o ofício deles é "ganhar sempre", mesmo
quando todos outros estão perdendo, a nação
e o mundo inclusive. É bem sintomático dos tempos
atuais a perplexidade com que a nação brasileira tem
assistido a uma série de ações policiais bem
sucedidas no sentido de identificá-los e responsabilizá-los,
mas que logram ineficazes diante da falência da atividade-fim
de outros órgãos do sistema de justiça criminal.
Em uma outra abordagem, podem emergir de crises como essa incrementos
em "crimes problema", caso de homicídios, sequestros,
estorções, fruto de vendetas perpetradas por "vítimas",
os supostos "enganados" em operações que
fazem parte do grande "desastre oculto" que parece estar
apenas emergindo, tanto global quanto localmente. Tais "atores",
entre possíveis autores e vítimas de vendetas, cujos
nomes eram pouco conhecidos, ou até mesmo totalmente desconhecidos,
já hoje circulam impressos nos grandes instrumentos midiáticos
do país, associados a centenas de milhões de dólares
ou cruzados desaparecidos.
Há quem cite o desaparecimento de 55 trilhões de dólares
do mercado financeiro global. No Brasil, mesmo antes dessa crise
mundial, já existiam até mesmo "dutos mapeados"
por onde recursos bilionários foram escoados não se
sabe bem exatamente para onde e para quem. A questão já
é, portanto, desde algum tempo conhecida de certos setores
do Estado, mesmo antes da crise atual, e é de tamanha ordem
que existem hoje orgãos de governo voltados especialmente
para a recuperação e repatriação de
recursos públicos subtraídos da nação.
São cifras astronômicas de operações
financeiras absolutamente estranhas à compreensão
do "homem comum", mas que certamente envolvem recursos
que, por sua monta, derivam de origens no erário publico,
distintas daquelas outras, significativamente menores, sobre as
quais a cidadania tem algum acesso ou conhecimento pela ação
da criminalidade comum. As expressões que estão associadas
a essa mega-criminalidade são, formação de
quadrilha, corrupção, informação econômica
privilegiada, má versação de fundos públicos
aplicados no setor publico e privado, evasão de divisas,
sonegação fiscal, etc.
Emergirá também, de tudo isso, uma nova visão
criminológica sobre o crime, criminosos e questões
conexas do século XXI. É de supor que os valores envolvidos
em escândalos como os atuais, em mercados globais e locais,
sobrepassem, em muito, a totalidade do dano perpetrado por milhares
de "criminosos comuns" e que hoje abarrotam os estabelecimentos
prisionais do país e do restante do mundo. Isso parece apontar
uma crise ética de valor que solapa não só
o poder publico, a iniciativa privada e o Terceiro Setor, mas também
as leis de mercado e o próprio Estado Moderno e suas instituições
permanentes. As próprias organizações policiais
e de Inteligência, em seu funcionamento e doutrinas, passam
por uma crise de responsabilização a cada novo caso
de corrupção economico-financeira que emerge da sua
atividade-fim, em uma inversão de valores que escandaliza
a nação.
Ao que parece, coisas como os lucros exorbitantes e inexplicáveis
(pelo senso comum) da indústria financeira, do Brasil e de
outros países, incluindo coisas tão exóticas
ao entendimento médio como os investimentos de "fundos
de pensão" (em "papeis" ou "ativos financeiros"),
não terão exatamente o mesmo significado que antes.
A dúvida, conforme apontado no "New York Times"
(em sua edição de 11 de outubro, em matéria
que vai assinada por Christine Hauser e Al Baker) é, referindo
a própria Nova Iorque, "Se o crime voltará como
uma vingança, com a economia da cidade afundada em profundidades
nunca vistas em décadas?"
Na mesma matéria do "New York Times" são
citadas diferentes feições de crises na segurança
pública resultantes de problemas de ordem econômica
sustentados naquele país. Interessante e regularmente, com
um determinado "tempo morto" entre as crises econômicas
propriamente ditas e seus reflexos na esfera da "lei e da ordem".
A exemplo, incrementos nos índices de homicídios tempos
depois da queda na bolsa de "Wall Street" em 1987; uma
escalada de roubos em 1981, seguida da crise econômica do
final da década de 1970 e do início da década
de 1980 e, também; a dilapidação de bairros
periféricos, decadência educacional e explosão
de índices gerais de criminalidade após a crise fiscal
norte-americana dos anos 70 do século passado.
Conceitos de gestão da segurança pública, apropriados
diretamente no Brasil dos norte-americanos, ou até mesmo
em segunda ou terceira mão, caso do "Tolerãncia
Zero" e "Janelas Quebradas", remontam a tais contextos
econômicos e respectivos reflexos na segurança pública
dos Estados Unidos da América.
Ainda no mesmo periódico dos EUA, é citado o sociólogo
Richard Rosenfeld da Universidade de Missouri em Saint Louis, ao
observar que "Toda recessão, desde o final da década
de 1950, tem sido associada a um incremento em crime, particularmente
delitos contra a propriedade e roubos, os quais respondem mais prontamente
a mudanças nas condições econômicas".
E acrescenta ainda, "Existe um ano de lapso temporal entre
mudanças econômicas e seus reflexos nos índices
de criminalidade". -
COMO ESTAMOS PREPARADOS POLÍTICA E ESTRATEGICAMENTE
PARA ISSO NO BRASIL?
Ao menos em termos de modernas técnicas e tecnologias investigativas,
temos hoje polícias altamente preparadas, guiadas na atividade-fim
segundo as melhores práticas mundiais, ainda que "sob
forte fogo amigo". É isso o que acontece a cada nova
descoberta de materialidade e autoria de delitos marcados pela complexidade
e translocalização global do crime e da violência
do século XXI: "fogo amigo".
Nos tempos sombrios que podem advir de uma grave crise de insegurança
global (política, econômica e social), com possíveis
e profundos reflexos internos (na segurança e ordem pública
inclusive) em grandes países como o Brasil, como reverter
um quadro em que as instituições da segurança
pública do país vem sendo sistematicamente colocadas
em xeque como sendo "do Estado e contra a Nação"?
– De que parte do Estado? – E contra que parte da Nação?
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