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Política
- Paraíba, Domingo, 31 de agosto de 2008
POLICIA
DE BOA VIZINHANÇA
Dora
Kramer
Aos 50
anos de idade, quase todos da fase adulta dedicados à defesa
dos direitos humanos, o secretário nacional de Segurança
Pública do Ministério da Justiça, Ricardo Balestreri,
vai logo avisando: “Não sou um romântico”.
Faz a ressalva meio na defensiva, a título de introdução
à análise sobre as razões pelas quais, na sua
visão de estudioso, consultor e agora executivo da área
de segurança pública, os governos do Brasil pós-redemocratização
não conseguem dar um passo adiante no combate à criminalidade.
São
quase que meros espectadores inertes dão agravamento da situação.
Isso embora a insegurança esteja no topo da lista das preocupações
da população e, nem Fernando Henrique Cardoso nem
Luiz Inácio da Silva – para citar apenas os dois eleitos
e com mandatos em ambiente de normalidade institucional –
possam ser acusados de insensibilidade política e social.
Cuidaram da economia como quem amamenta um bebê a inspirar
cuidados permanentes. Sabem que, se tivessem dado um jeito pelo
menos na contenção da violência, seriam sérios
candidatos à consagração unânime.
Se não
é alienação, indiferença ou desumanidade,
qual é o obstáculo? Nos dois grupos, antagônicos
no campo partidário, a dúvida perpassa, mas não
produz uma resposta. Ricardo Balestreri não concorda com
uma tentativa de explicação, segundo a qual a geração
oriunda da esquerda quer distancia de assuntos ligados à
repressão. Por motivos óbvios.
O secretário
nacional de Segurança acha simplista o raciocínio,
embora sustente sua analise a partir de uma premissa relacionada
aos procedimentos do governo autoritário. “A ditadura
afastou a policia do povo e a democracia ainda não devolveu.”
E por
quê? “Porque nos países premidos pelo senso comum,
a discussão fica rasteira, muitas gene palpita, poucos entendem
e, como a violência causa sofrimento e fadiga, o cidadão
cobra com emoção, o poder público procura corresponder
também com emocionalismo que mal conselheiro, não
resolve nada.
Nesse
ambiente, aponta o secretário, acaba prevalecendo a lógica
da eliminação: trancafiar todo mundo, matar a maioria.
“Prendendo todos conseguiremos, no máximo, aumentar
o contingente de doutores no crime e , matando, não resolvemos
porque no dia seguinte o bandido é substituído por
outro convocado no exército de reserva das organizações
de delinqüências, em geral mais jovem e mais cruel. Se
matar fosse a solução, o Brasil, como seu enorme índice
de letalidade de criminosos, seria o país mais seguro do
mundo.”
Portanto,
na opinião dele, a primeira tarefa é alterar procedimentos.
“A lógica do Estado tem de ser a da repressão
qualificada. “Antes de prosseguir na receita, segundo ele
em parte já em execução pelo Ministério
da Justiça, Baletreri esclarece uma questão: acha
um equívoco falar em poder paralelo do crime. “Isso
não existe, assim com não é na favela que mora
o crime organizado.”
O poder
do crime, hoje, diz, não é paralelo, é “transversal”
ao Estado, perpassa todas as instâncias oficiais, “freqüenta
os melhores ambientes e, por isso, é tão difícil
de combater”. O secretário remexe na ferida: “Por
que no regime militar o Estado conseguia combater quem via como
inimigo e hoje não consegue”? Contaminação
decorrente de corrupção.
Mas não
só e aqui chegamos onde ele localiza o verdadeiro crime organizado.
“Nas altas esferas do poder econômico e político.
A raiz está em cima. Os delinqüentes, ainda que de porte,
são empregados dessa gente que não põe diretamente
a mão na lama, mas está à frente de uma indústria
poderosa que hoje representa um quarto da economia mundial.”
Então,
estamos perdidos, sem solução? Ricardo Balestreri
não confunde dificuldade com rendição. Do povo
“de cima” acha que a Polícia Federal (“com
todas as imperfeições”) começou a cuidar
quando se voltou primordialmente para os crimes de colarinho-branco.
Este
é um patamar.
No outro,
da esfera do dia-a-dia, que chama de “crime ordinário”
– o assalto, o estupro, o homicídio, a ação
de gangues – a solução por ele sugerida é
a reforma das polícias, mas na direção oposta
à da tese de aceitação geral sobre a unificação
das policias civil e militar.
“Seria
o mesmo que obrigar um casal em desarmonia a viver junto, o risco
de se matarem é grande.” Na opinião dele, cada,
cada uma das policias deveria ter autonomia para fazer o trabalho
completo de prevenção, investigação
e prisão.
“Do
jeito como está hoje temos duas meias policias e não
temos nenhuma. A militar trabalha no modelo ultrapassado do radiopatrulhamento
em que a policia passa mas não fica e não está
presente quando o cidadão precisa, e a civil é um
cartório de ocorrências mortas”, diz o secretário.
Há esperança de mudança em breve? “Vou
defender que o governo Lula não termine sem apresenta-la.”
Quando? “A partir de 2009 seria bom.”
De fato.
Basta convencer suas excelências a prestarem atenção
em alguma coisa que não seja a sucessão de Lula.
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Veja
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