Os cidadãos honestos e trabalhadores precisam lutar contra toda a sorte de
tentações e ameaças. Tentam sobreviver à fúria arrecadadora dos governos –
propositalmente desorganizados -, aos interesses das corporações e à força bruta
do poder paralelo do crime organizado.
Seqüestros relâmpagos, atentados, assaltos, estupros, assassinatos, aumentos
de impostos e tarifas públicas, juros altos, competitividade insana, mercados
“fabricados”... Tudo se mistura numa sensação crescente de que ser idôneo é
aceitar ser lesado e violentado, resignadamente; enquanto ser marginal, de
qualquer nível social, é sentir-se livre e seguro para praticar seus crimes,
mesmo quando recolhido ao sistema prisional.
A morosidade, a burocracia, a conivência e a incompetência dos responsáveis
pela manutenção da lei e da ordem estão abrindo espaço para que o crime
organizado se espalhe, intimide e domine com a velocidade de um cancro, perante
os olhos atônitos e impotentes da sociedade, progressivamente sitiada,
desprotegida e privada de seus direitos civis mais elementares. Os criminosos –
das mãos sujas ao colarinho branco – dispõem da melhor assessoria jurídica, das
melhores armas, de esquemas que envolvem corrupção institucional, de um serviço
de “inteligência” eficiente e da proteção de órgãos de defesa de direitos
humanos, que os tratam como vítimas; enquanto as vítimas de fato, e suas
famílias, muitas vezes minguam, de desencanto e, até, fome: sem qualquer tipo de
assistência, sem uma voz que seja ouvida e sem direito de resposta!
As autoridades parecem assistir, passivamente, ao que em alguns casos já
assumiu os contornos de uma verdadeira guerra civil urbana, onde valores éticos,
morais e religiosos estão sendo progressivamente substituídos pelo desejo
ilimitado e impune por: poder, dinheiro e prazer.
O resultado dessa “política” já pôde ser constatado no Rio de Janeiro, no
Espírito Santo e, agora, também pode ser visto, dramaticamente, em São Paulo,
onde atentados violentos e covardes mataram dezenas de policiais, inclusive de
áreas que nada têm a ver com o combate direto ao crime, como foi o caso do
assassinato de um bombeiro. Com isso, os organismos de repressão, que já se
sentiam reprimidos, desmotivados e mal-equipados, agora estão, também,
amedrontados e, ao mesmo tempo, justamente revoltados!
A sociedade precisa se mobilizar firmemente, cobrando objetividade e
presteza das autoridades - em todos os níveis - no cumprimento de sua função
constitucional de assegurar a lei e a ordem! Senão, de repente, algum
“iluminado” poderá sugerir, como última alternativa a um caos maior, a adoção de
medidas de exceção que, sob o pretexto de propiciar amplos poderes executivos
para o combate à corrupção e à criminalidade, municiarão seus responsáveis com o
controle absoluto do sistema, com todos os já conhecidos - e não menos temíveis
– riscos à sociedade
Adilson Luiz Gonçalves
Publicado em 15.05.2006