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12/03/2006
O
mais recente escândalo sobre nova tentativa de fraude no concurso para o
cargo de agente policial no Estado do Rio e a ineficiência demonstrada pelos
órgãos de inteligência e os comandos das polícias fluminenses na anunciada
invasão da Rocinha espelham a imagem da segurança pública que é vista pelos
cidadãos.
As desculpas para tais impasses brotam de maneira simplista e
repetitiva, reportando à sociedade a real situação em que se encontram as
nossas polícias. Elas ainda estão órfãs de uma lei orgânica que lhes
outorgue uma estrutura administrativa e financeira independente e estável,
livrando-as definitivamente da ingerência de dirigentes indicados
politicamente, que delas se utilizam apenas para enriquecer o currículo
pessoal e profissional.
Repita-se: enquanto não houver uma lei orgânica nacional para as
polícias a sociedade se verá protegida por uma polícia à moda do Brasil
Colônia.
Somente em maio de 1808 o país conseguiu transformar a chamada polícia
dos donatários das capitanias hereditárias em Intendência Geral de Polícia
-- nos moldes da existente em Lisboa. O motivo da mudança foi proteger os
fugitivos da Corte portuguesa, então ameaçada pelas tropas do corso
Bonaparte. O gestor do aparato de segurança dos então colonizadores
lusitanos foi o desembargador do Paço, Paulo Fernandes Viana.
Não é de hoje, portanto, que as polícias são dirigidas por pessoas
estranhas a seus quadros - os chamados "amigos do rei", que ocupam cargo de
confiança -- os quais nem sempre possuem qualquer compromisso com as
instituições que comandam e que são órgãos permanentes de segurança pública.
Ou seja, enquanto os dirigentes passam, as polícias continuam, tendo a
sociedade como mera espectadora daquilo que acontece - e os poderosos como
principais destinatários de seus serviços. É a chamada Polícia de Estado,
que perdurou depois do Estado Novo, vindo a ganhar força com a Revolução de
64. Ela sobrevive - apesar da Constituição Cidadã de 88 - pois o cargo de
secretário de Segurança Pública do Estado não é de confiança da sociedade,
mas sim de confiança do governante, embora estejamos sob a égide de um
Estado democrático de direito.
Assim, o novo escândalo havido no citado concurso público também nos dá
o tom do descrédito, da audácia e da falta de respeito da sociedade com as
instituições policiais.
Não é à toa que ainda surjam pessoas como a dona Vitória: uma senhora,
aos 80 anos de idade, aposentada, cansou-se de ver aquilo que o serviço de
inteligência das polícias vê no seu dia-a-dia -- mas nada faz -- resolveu
agir sozinha, em prol da sociedade e por conta de sua indignação. Comprou
uma filmadora em módicas parcelas mensais e, num misto de cineasta e
investigadora, fez e acabou por ensinar ao órgão de inteligência das
polícias aquilo que já deveria ter sido feito há muito tempo.
É uma pena que ela tenha parado o seu filme em apenas um dos morros da
Zona Sul do Rio. Poderia ter filmado ainda as calçadas da cidade e
comprovado que nelas, também, há o loteamento do espaço público pela
ilegalidade - do humilde camelô ao destemido apostador do jogo do bicho -
tudo com a parcimônia e a complacência dos órgãos de repressão, orientados
pela cegueira dos órgãos de informação do poder público, em todos os níveis
(municipal, estadual e federal).
Pergunta-se: como acreditar em polícias que não conseguem sequer depurar
seus próprios concursos, sujeitos a repetidos escândalos de violação de
provas? Como acreditar em polícias que apesar de antever confrontos entre
marginais não conseguem se antecipar a eles?
Tais fatos e suas graves repercussões sociais somente foram passíveis de
crítica e avaliação graças à liberdade de imprensa, formadora da opinião
pública e verdadeira precursora de uma polícia cidadã, que ainda haverá de
se libertar dos grilhões que a corrupção e o favorecimento pessoal
instalaram em suas fileiras. Somente uma imprensa livre e uma polícia
liberta de influências políticas poderão dar a resposta que a sociedade
tanto procura. No mais, é tudo balela e conversa fiada dos "amigos do rei".
ALEXANDRE
NETO e ALBERTO CALVANO são delegados de polícia no Rio de Janeiro.
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