O Policial, o estresse e

o comportamento violento.

 

Edição 0013 – 30 de março de 2004. O Quinto Poder

Que o excesso de trabalho conduz ao estresse, não há dúvidas. Pior ainda, quando há sobrecarga com intermináveis horas em torres de presídios, rondas contínuas por bairros violentos e perigosos ou trabalho policial de alto risco com trocas de tiros e riscos à integridade física. O cidadão de bem que só conhece esta faceta do trabalho policial através de filmes, não tem a menor idéia das várias alterações psico-físicas que ocorrem no organismo do policial quando em confronto.

Quando a situação de perigo ocorre, todo o organismo é posto em alerta. Todo animal inclusive o homem, quando em perigo, prepara-se para duas situações: escapar ou atacar. Ao perceber um possível perigo, um ou mais dos sentidos manda ao cérebro esta informação sob forma de sinais elétricos; o cérebro reage liberando imediatamente o ACTH que aciona as supra-renais que segregam hormônios que causam reações típicas: vasos da pele contraem-se bruscamente retirando sangue evitando assim hemorragias em caso de pequenos ferimentos (palidez); os alvéolos pulmonares dilatam-se aumentando a entrada de ar e os hormônios aceleram a respiração; o ACTH força o fígado a produzir mais açúcares dando energia extra aos músculos. Estas reações, às vezes, estão intimamente ligadas à contração involuntária do dedo que puxa o gatilho; os olhos são preparados para detectar o perigo com a dilatação das pupilas; a adrenalina dopa o sistema nervoso nas regiões responsáveis pelo sono. Frequentemente as escalas de serviço e os serviços extras do Policial não lhe permitem o repouso adequado e a repetitividade das ocorrências deixa-o em constante estado de alerta.

Mas não são só estes os grandes problemas desencadeantes do estresse Policial. Os baixos salários obrigam-no a procurar atividades paralelas, ligadas à sua área, para complementação do salário miserável, em busca de mais dignidade para sua família. Assim, é comum tomarmos conhecimentos de situações em que Policiais , após completarem sua jornada de trabalho, ao invés de irem para casa descansar ou dormir para reposição de energias e recuperação do equilíbrio perdido em trabalho de alto risco, dirigem-se para a execução de uma segunda atividade, normalmente segurança pessoal ou patrimonial. Estas atividades são também extremamente estressantes por envolverem marginais, armas e vidas.

Após mais esta jornada de trabalho paralelo, às vezes, o Policial consegue um curto descanso antes de voltar ao trabalho em sua Organização , cumprindo normalmente um período de serviço de 24 horas seguidas, com apenas 6 a 8 horas de repouso. Dependendo da capacidade de absorção dos problemas conseqüentes da excessiva pressão profissional, do tipo de alimentação, dos estados de saúde pessoal e familiar, das dificuldades com moradia e escola para os filhos, da formação moral, familiar e social, bem como a conseqüente falta de prática de atividades físicas saudáveis, todo este conjunto, em maior ou menor intensidade, também fica comprometido em razão dos péssimos salários. Tornam-se assim estes, também, quando deficientes ou em desequilíbrio, fatores desencadeantes que levam com o passar do tempo, a comportamentos anormais, principalmente os violentos.

Como pode um homem com a missão de proteger a sociedade, faze-lo de maneira satisfatória se ele mesmo não tem nenhuma proteção ou segurança? Os grandes problemas da classe Policial hoje, resumem-se em: péssimos salários, falta de equipamentos, de meios e formação e manutenção profissionais deficientes com todas as conseqüências já observadas. O tratamento indigno para com o Policial começa pela formação que recebe nas academias de Polícia (péssimas instalações, alimentação deficiente, instrutores despreparados e truculentos etc etc etc), atropela toda a sua vida pessoal, familiar e privada, terminando pela humilhação a que é submetido principalmente por aquele que deveria apoiá-lo incondicionalmente. O Estado.

Os sábios de plantão costumam declinar uma pérola de inteligência e bom senso para justificar a insatisfação conseqüente dos miseráveis salários dos Policiais: - “Se o Policial não está satisfeito, que abandone a profissão”. Com certeza, ele faria isso se tivesse oportunidade ou meios. A esmagadora maioria dos subalternos que consegue encontrar qualquer atividade lícita, mais segura e melhor paga fora das Corporações, sai. Só permanecem aqueles que realmente amam a profissão e esperam melhores dias, os que não sabem ou não conseguem fazer mais nada e os indesejáveis pelos bons Policiais: aqueles que fazem da vida policial um trampolim para obtenção de dinheiro fácil ou facilidades para obtê-lo de forma ilícita.

Péssimo para o Policial, péssimo para a sociedade. Todos estes fatores externos e internos que causam prejuízos à segurança pública, à vida do Policial e dos demais cidadãos de bem, trazem um benefício imediato: desviam a atenção da população dos problemas sociais, da corrupção generalizada, dos favoritismos, dos apadrinhamentos, das maracutaias e dos desvios de verbas públicas. Trazem também à tiracolo, grandes beneficiados: os políticos/autoridades responsáveis por atividades criminosas ou que delas fazem parte e que não tem o menor interesse em que haja segurança pública de qualidade. Podemos então, entender o porquê de nenhuma Polícia no Brasil ter formação, salário e tratamento adequados. Uma boa Polícia traz segurança à população. Uma sociedade segura sai às ruas, conversa, contesta e incomoda. Quer apurações, CPI's, resultados e corruptos na cadeia. Mas isso é uma outra história.

Contador de acessos