A HORA DE INVESTIR NO POLICIAL

 

Artigo publicado no Jornal da Tarde em 11/05/2000

"A força de uma democracia e a qualidade de vida usufruída por seus cidadãos são determinadas, em larga medida, pela habilidade da polícia no desempenho de seus deveres" David Bayley, Universidade do Estado de Nova York O governo do Estado ganhou uma mesada inesperada de meio bilhão de reais com a privatização da distribuição de gás e pretende gastar parte desse dinheiro na segurança pública. Existem setores que podem ser beneficiados para ajudar a melhorar o desempenho do aparato policial. Um deles é o setor de telecomunicações, bastante defasado na Grande São Paulo e grandes cidades do interior, com equipamentos obsoletos que dificultam a coordenação das operações policiais, oferecem riscos aos policiais e é vulnerável à escuta de estranhos. Outro setor que demanda investimentos é a expansão do sistema de computadores para banco de dados criminais, que começou a ser adotado na capital, essencial para orientar ações precisas de redução de crimes nas grandes cidades. Investimento em treinamento, tecnologia da polícia técnica, instalação de uma central de denúncias e reposição de viaturas em grandes cidades também merecem recursos.

Mas a maior parte desse dinheiro deveria ser investida nos recursos humanos.

O parque de recursos material com helicópteros, viaturas vistosas, armas importadas, computadores deve ser visto como mero complemento do recurso humano policial. A quase totalidade das ações policiais depende do ser humano interagindo com outras pessoas - vítimas ou partes de conflitos - mediando disputas, apaziguando, consolando, orientando, socorrendo ou agindo sobre infratores da lei, prevendo suas ações, contendo, ordenando, subjugando, enfrentando. O campo de trabalho do policial é especialmente tenso: as pessoas que o policial aborda - mesmo numa corriqueira fiscalização de trânsito - experimentam alteração do estado emocional, o que freqüentemente compromete sua racionalidade e dificulta a intervenção policial. Nenhuma atividade humana lida tanto com o lado mais difícil do ser humano, em suas mais grotescas expressões e seus piores sofrimentos. Ao lado dos riscos, tanto físicos como do comprometimento funcional nas dezenas de complexas decisões instantâneas de seu dia-a-dia, o policial precisa sufocar seus sentimentos pessoais de medo, raiva e nojo para cuidar da paz na sociedade, protegendo vidas e propriedades. O ser humano que existe no policial, de quem se espera qualidades sobre-humanas, está sempre sujeito ao estresse e ao desencantamento com a sociedade, vivendo num mundo de violência e desrespeito a todas as normas que regulam a vida social.

A sociedade entrega ao policial o poder de usar a força - a exclusividade da violência legal - para ajudar a regular as interações sociais. Esse poder legitimado - autoridade - não é privilégio dos altos chefes policiais, mas recai sobre o nível mais baixo da hierarquia que efetivamente executa as ações críticas no contato com as outras pessoas. O exercício desse poder não depende de tecnologias e artefatos que estão nas vitrines dos que fazem da polícia seu mercado de negócios. A habilidade dos policiais para reduzir e controlar a criminalidade, além de atender de forma civilizada os cidadãos, depende largamente de seus chefes. Chefes que respeitem seu difícil trabalho, ofereçam condições adequadas de trabalho e sejam especialmente motivadores, despertando e mantendo nos policiais subordinados a vontade de fazer bem-feito. No topo da hierarquia policial está o governador, o principal chefe, que tem preferido investir mais em coisas do que em gente.

As evidências são abundantes de que está está mais do que na hora de investir no policial de rua, o instrumento do qual dependem os tão desejados e necessários resultados na segurança pública. Que tal, sr. governador, usar dois terços desse recurso caído do céu para pagar - nos três anos e pouco que lhe restam - prêmios por produtividade, horas extras e uma gratificação decente aos policiais operacionais das grandes cidades, onde estão submetidos às piores condições de custo de vida, de complexidade profissional, de risco e de motivação? Aumentando o seguro de vida, como foi anunciado, o governador dá a impressão que só valoriza o policial após morrer em serviço. Não é assim que se vai melhorar o ânimo profissional dos policiais vivos.

Cel. José Vicente da Silva

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